terça-feira, 30 de setembro de 2014

CAMINHANDO ENTRE AS TEIAS DOS TROPOS

Os historiadores que estabeleceram uma distinção rígida entre a história e a filosofia da história não percebem que todo discurso histórico contém uma filosofia da história que é autêntica, ainda que apenas subentendida (...) a principal diferença entre a história e a filosofia da história é que essa última traz para a superfície do texto o aparato conceitual com que os fatos são ordenados no discurso, ao passo que a “história de per si” (como a chamam) a oculta no interior da narrativa, onde ele serve como um artifício oculto ou implícito. Hayden White, Trópicos do Discurso in Jenkins História repensada. Construímos, pois, uma trama e uma narrativa do passado a partir das fontes existentes, dos recursos teórico-metodológicos escolhidos e de um olhar, dentre vários outros possíveis, marcado por nossa atualidade, vale dizer, por nossa inserção cultural e social enfim, por nossa própria subjetividade. Margareth Rago, prefácio à obra A História Repensada A cada momento da busca e da construção do objeto da pesquisa, sentimo-nos como que olhássemos para algo instável que foge ao controle da nossa frágil estratégia de busca. Aí nos colocamos a buscar de forma muitas das vezes entediada documentos que condiga com nossas hipóteses criadas a partir de nossa leitura teórico-metodológica. É nesse momento que muitas das vezes, caímos em profundo estado de frustração e nossa auto-estima profissional parece chegar a grau zero de depressão. Parece que toda leitura até então feita para me equipar para esse instante tão esperado e tão desejado, tenha me deixado. Entramos em vertigem quando as águas se turvam e eu perco a dimensão que foge dos limites do objeto projetado. Aí nos vem a pergunta: como se deu o nascimento desse objeto que já estava como que um molde em busca de seu preenchimento? Metaforizando o céu, vemos como as nuvens e a criança que ao correr para contar aos outros sobre um desenho formado eis que ao retornar o olhar tudo já se tenha desmanchado e retomado em novos formatos. Esse menino fica atônito e com medo de ser ridicularizado pelos que lhe dão atenção e aos quais insiste em pedir atenção para sua busca. No caso da pesquisa em história é mais grave ainda, não dá tempo nem de organizar em as estruturas pensantes e eis que até as estruturas que nos instrumentalizaram para as buscas e onde armazenamos todo instrumental de análise se esgarçam e todo o passado que nos vem por documentos se negam a servir como testemunhas de nossa busca de objetividade sobre seu momento de aparição. todas e tudo rola morro abaixo. Parece que esse menino nunca vai realizar sua viagem. Eis aí a situação da relação da história com o passado, ou seja, a situação da historiografia e sua relação com o que quer mostrar como sendo a verdade sobre o passado. Estou trilhando sobre um terreno que torna a situação totalmente diferente. Acostumado a entender a história como sendo o passado, pelas artimanhas historiográficas veiculadas pelos manuais escolares, levei um longo tempo e demarquei uma longa trilha espacial em minhas experiências de estudos e das aulas que já proferi . Peço desculpas a meus ouvintes que por ventura creram em minhas sinceridades. Creio eu que, aludindo a Antonio Cândido, “todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época” . Eu diria que me fizeram acreditar que as coisas se davam mesmo no passado. Aos poucos fui vendo suas fabricações são fruto de práticas sociais que se desenredam em políticas definidas por escritas determinadora da ordem das coisas. Isso é próprio de cada momento do passado, do presente de cada um desses acontecimentos narrativos que produzem um a história de acontecimento no passado mas que é fabricação de outras épocas, outras camadas “geomorfológicas” da produção de sentidos sobre o passado. Eram relatos que em sua pretensa inocência pareciam com um ramado de flores, ao serem trilhados porém causavam a vertigem da queda em um poço abandonado. Agora ao tentar ler sobre algum autor fico sem muitas armas, pois ele está falando de um passado tão distante dele que de forma tão paradoxal é ao mesmo tempo, tão próximo das práticas sociais de seu tempo. A dificuldade maior está em discernir esses dois tempos, ou melhor, esses dois espaços: o do passado e o momento em que se arquitetam a invenção desse passado. Os manuais que são enviados para a apreciação dos professores do ensino fundamental e médio, na maioria das vezes não colocam à vista de professores e alunos o lugar filosófico de sua produção. Chega como conteúdo e é imposto pela ementa de forma rígida e muitas vezes submissamente obedecido pó um poder que se aloja nas extremidades do poder. Assim editores, escritores, leitores são conduzidos por discursos narrativos de tal forma que passa a ser praticado por professores coagidos por portarias, leis e o funcionamento dessas por secretários governamentais, delegados de ensino, diretores de estabelecimentos escolares, por seus coordenadores, professores e pais de alunos que juntos coagem as crianças tornadas alunos, por um seqüestro de suas vontades. Os desejos contidos em cada uma dessas pequenas almas são então redirecionados às escritas narrativas revalidando neles o seu passado e os domínios de suas memórias. Assim originada em um pensamento abstrato um saber produz uma prática intelectual que conduzida por instituições, redistribui os desejos e faz com que o mundo abstrato predomine sobre o mundo empírico e mantenha um jogo destruidor da vida como eternidade do instante e suas práticas desejantes. O ensino de história em sua situação acadêmica/escolarizada quase que igualmente em todos os estabelecimentos a serviço da escola como refinadora do saber comunitário, não consegue ultrapassar esse espaço de saber que acaba produzindo poder de uns sobre outros. Esta forma de saber sobre o passado garante-se como verdade nas instituições de ensino superior através das ementas constituídas a partir dessas extremidades onde o saber funciona e produz poder. Essas práticas passam a ser defendidas e muitas vezes aparecem nas reuniões de colegiados como reprimenda para sua aplicação. Assim, ao ser escamoteada a filosofia da história, que está implícito no texto, os graduandos formam-se sem esse discernimento entre formas e práticas de suas emergências e os conteúdos daí produzidos como verdade. Ao alojar-se no interior do próprio saber que funciona em busca da maior proximidade com a verdade sobre o passado, sente-se em casa como pertencimento. Para isso funciona também por um conceito de tempo do refinamento intelectual que age por refutação suprimindo saberes anteriores quando considerados como obsoleto na sua tentativa de proximidade ou como desvendamento da verdade. Assim que lhe é apresentado pelo curso: o saber que goza de autoridade sobre o passado passa a ser visto como um manual maior para efeitos de estudos. Ao começar a trabalhar fica sem esse estranhamento do que é passado e do que é história e conseqüentemente do que é fato e do que é interpretação e que se configura como sendo a verdade e que acaba por silenciar o uso de nexos que negam as rupturas. Assim a totalidade fica submetida a uma narrativa ligada à filosofia da história que constrói uma forma de história como verdadeira em detrimento de blocos históricos que ficam submersos em zonas de silêncio. Em lugar de começos perversos onde há chacinas que se perfilaram como obstáculos à conexão funcional do tempo são silenciadas em nome de uma origem que as vê como produto da queda e daí a justificativa de uma solenidade de recomeço da história como continuidade interrompida. A luta para desconstruir a figura dos tropos onde estão contidos esses saberes sobre o passado é tida como algo herético e causa muitas vezes discriminações dos que se arriscam a lutar contra esse problema no ensino e que justifica uma nova forma de abordarmos as questões da historiografia. Essa atitude perante os domínios acabam pó ser tornarem fortalezas onde deveria ser construídas pontes para sua superação. A relação da história aparente com uma verdade profunda alimentou a busca de investigação sobre o passado por um bom e longo tempo e ainda está presente em nosso cotidiano acadêmico e nas suas ramificações no ensino fundamental, que funciona como caixa de sua ressonância. Essa forma ficou conhecida como história moderna e deu forma às narrativas ao passado de forma a garantir poder aos desejos burgueses. Os fatos do passado eram tidos pelos historiadores como verdadeiros e foram cuitivados como uma natureza que ia das relações culturais consideradas como sem história até ao espaço de seu refinamento e evolução quando se tornassem produto das relações sociais, ligadas à produção. Esse conceito impregnou o funcionamento da natureza, seja ela humana, vegetal, mineral ou animal. Todas as coisas da superfície estavam de alguma maneira vinculada a uma segunda natureza. Essa ainda persiste sendo considerada como uma natureza que se configura como a essência que subjaz a aparência na superfície e tida como a pluralidade que passa a ser interpretada como mero acessório a uma história invisível e contínua. A multiplicidade da superfície passa a ser considerada como desintegradora e causadora da desigualdade enquanto tornava-se com isso necessário a busca de uma natureza profunda e invisível aos olhos que continha o papel de integradora dessas multiplicidades e como condutora da vida. Delimitada por essa relação hierarquizante entre o múltiplo e o fundamento estrutural, torna possível tornar o mundo empírico objeto da busca incessante da experiência, porém com o intuito de segmentá-la a uma totalidade universalizante. Essa por sua vez também se declinava do lugar de produção da essência da vida dando lugar a uma totalidade a ser buscada como forma de atingir o alvo da perfeição humana, de sua emancipação diria o iluminismo, de sua libertação de uma situação imóvel como era visto a natureza hegeliana, que sem a concretização da espiritualidade através de relações dialéticas não seria possível constituir um tempo libertador definitivo e maior. Nele o mundo ideal se manifestaria na concretude da superfície onde se dá a multiplicidade natural e a retiraria da sua fixidez e ao mesmo tempo o espírito se concretizaria como o condutor de uma libertação que se materializaria em sua forma perfeita na figura do Estado Liberal. Movidos por leis de uma necessidade que se realizaria na história, os historiadores, estavam convictos de que os fatos do passado eram (ou deveriam ser) governados por leis necessárias que os guiariam por um fio condutor a uma continuidade totalizante que tinha como alvo a liberdade ou a emancipação e que se daria através da constituição do Estado Nacional e daí surge o tempo em que se chamou de “primavera dos povos”.

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