quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
O HOMEM E A NATUREZA DUPLICADA
OS DILEMAS DO USO DO PASSADO COMO ATUALIZAÇÃO NO PRESENTE II
Odemar Leotti
“As espécies animais diferem pela periferia, assemelham-se pelo centro; o inacessível as religa, o manifesto as dispersa. Generalizam-se do lado do que é essencial à vida; singularizam-se do lado do que é mais acessório; [...] pois a multiplicidade se vê e a unidade se esconde. [1999a, p. 369]
Foucault e os limites do corte arbitrário
Nessa citação podemos entender a grande reversão que se constituiu e que ficou como marcador do conceito de natureza e que garantiu valores para o tempo e espaço na sua forma moderna. Positiva-se com esse modelo um centro inacessível aos olhares que religa as multiplicidades e o que se manifesta aos sentidos dispersos essas multiplicidades. A essência como a originalidade e determinadora do lugar do acontecimento no tempo passa a se materializar como uma estrutura subjascente à multiplicidade superficial e se materializa pela generalização. Com essa naturalização do saber, o essencial à vida somente se dá ligada a uma ordem geral das coisas. As singularidades em suas múltiplas formas aparentes passam a ser consideradas como acessórios e todas elas podem ser redistribuídas em prol de uma unidade da vida. Portanto o que aparece como múltiplo no espaço é o que se vê e o que não vemos é o que lhes dão unidade. A unidade como medida do absoluto do ser passa a ser a prioridade do pensamento e as multiplas formas produzidas devem exercer sua função no interior de uma organicidade que garantirá a relação entre as vizinhanças das coisas.
Portanto [...] A partir de Cuvier, é a vida, no que tem de não perceptível, de puramente funcional, que funda a possibilidade exterior de uma classificação. Não há mais, sobre a grande superfície da ordem, a classe daquilo que pode viver; mas sim, vindo da profundidade da vida, do que há de mais longínquo para o olhar, a possibilidade de classificação. [Foucault, As palavras e as coisas,1999a, p. 369]
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