sexta-feira, 4 de outubro de 2013

RANCIÈRE E A POLÍTICA DA ESCRITA DOS ANNALES Ruptura epistemológica ou revolução das estruturas poéticas? OdemarLeotti Resumo A presente artigo tem como proposta, a partir das análises feitas por Jacques Rancière, sobre a política da escrita, dar visibilidade, através do estudo, do seu livro Os nomes da História: Um Ensaio de Poética do Saber, ao estudo que dedicou à tentativa de ruptura da nova história, ligada aos Annales, com o primado do acontecimento e dos nomes próprios. Evidenciar o relevo dado à comparação das produções feitas por seus historiadores, relacionadas com as obras de Michelet, quando de suas tentativas de dar voz às falas dos pobres.O objetivo é mostrar como que ao almejar uma cientificidade da história, não conseguiamdesvencilharem-se da arquitetura narrativa para constituírem outros sujeitos e outros acontecimentos. Na busca de dar cientificidade á morte do rei e aos seus historiadores, se colocavam na necessidade da regulação do excesso das palavras das massas, e da profundidade que lhes davam sentido. Para tanto era preciso dar-lhes outro relato fundador, não as apagando, mas erigindo-as no não-lugar da suas falas,retirando-as do seu tumulto. Esse procedimento colocava em funcionamento a história por uma disjunção, redistribuindo-a no discurso da ciência histórica, retirado o perigo que colocavam à estabilidade da narração, da ciência e da política, enfim da democracia. O interesse é mostrar como a via da análise pela poética do saber, nos faz saber sobre uma história com tripla articulação: ambições científicas, seus procedimentos literários e a seus pressupostos políticos. Palavras chaves: narrativa, política, ciência RANCIÈRE and the POLITICS of ANNALES WRITTEN Or epistemological revolution of poetic structures? Abstract This communication has as a proposal, from the analyses made by Jacques Rancière, about the politics of writing, give visibility, through the study, of his book The Names of History: an essay in Poetics of knowledge, the study devoted to the attempt to break the new story, linked to the Annals, with the primacy of the event and of proper names. Highlight the emphasis on comparison of productions made by their historians, related to the works of Michelet, when his attempts to give a voice to speak for the poor. The goal is to show how you to crave a cientificidade of history, they could not desvencilharem the narrative architecture to constitute other subjects and other events. In seeking to give cientificidade to the King's death and its historians, if placed on the need for adjustment of excess. Keywords: narrative, politics, science Este artigo tem como problema uma afirmação de Rancière de que as palavras têm um poder de ruptura, pois embaralham a evidência e dão significado às coisas que sem elas seriam simplesmente o que elas são. A indeterminação do saber sobre as coisas, portanto tem que relacionar com esse poder de ruptura. Como conseqüência as coisas terminam por sofrerem múltiplos usos “e, notadamente, permite a constituição de coletivos políticos unidos pela vontade de explorar o significado de palavras como liberdade ou igualdade” . Acabam os historiadores também se deparando com a instabilidade das palavras e que se vêem por esse motivo, perante noções como liberdade ou igualdade que acabam não sendo “palavras revolucionárias por si sós”, porém ligadas a um corpo que lhes dê inteligibilidade quando ligadas a um espaço de imanência, fora do qual perdem sua força potencial. O mesmo acontece com a arte. Há no estudo de Rancière um deslocamento do estudo que separa arte de política, o que torna sem sentido questionar se ela deve ou não ser engajada politicamente, haja vista, fazerem juntas arte-política constituição de um núcleo comum como espaço da imanência comunitária. Para ele essa questão torna-se vazia de sentido pelo fato da arte já fazer em si a modelação estética da política. Há o regime estético da arte que, realiza suas potencialidades essenciais ultrapassando a si e criando formas de vida não podendo por isso ser visto de forma especificada e enclausurada pelo estruturalismo nos limites da produção de quadros, pelo contrário são formas de sociabilidade e, portanto política comunitária é o que produzem. Ao observar os acontecimentos tidos como a Revolução Russa, entendeu que a “revolução estética não somente se ligou à revolução social, como também lhe forneceu modelos” . Para Rancière, “o que se passou na Rússia soviética não foi o confronto entre a política e a arte, foi o confronto entre uma política da arte revolucionária, criadora de formas de vida, e a visão estática da arte como ilustração da revolução social” . A arte antes de ser delimitada como a ilustração da estética comunitária ela é a sua produção e o espaço de onde é produzida. Rancière para efeito de seus estudos distancia-se, da análise que separa política e escrita, e as entendem como fazendo parte de um núcleo de pensamento que é definido e que “liga a supradeterminação do conceito de escrita ao pensamento da ligação comunitária” .O conceito de escrita é político por estar sujeito a um desdobramento, por ser ele produtor de uma conjunção do saber e por outro lado está sujeito a uma disjunção. Escrever para Rancière está ligado ao corpo que antes de se utilizar da escrita é atravessado por ela e se relaciona como o corpo comunitário que se significa por um corpo de escrita que define e é definido por uma estética política. Esta por sua vez inscreve e se inscreve no ato de sua enunciação, ou seja, o ato que enuncia em sua ação concreta e expõe a sua forma de escrever e com isso o exercício de uma estética desse ato de escrever em outra ordem da escrita. A realização da escrita já está inscrita nesse ato em uma relação com os outros corpos. Para Rancière há na prática cotidiana da comunidade: “uma relação da mão que traça linhas ou signos com o corpo que ela prolonga; desse corpo com a alma que o anima e com os outros corpos com os quais ele forma uma comunidade; dessa comunidade com a sua própria alma. Assim o ato de escrever, nas sociedades escolarizadas, é uma maneira de ocupar o sensível e de dar sentido a essa ocupação. Na relação apaixonada que as sociedades escolarizadas dão ao aprendizado da escrita e à posição correta do corpo do jovem aluno, mais ainda que à perfeição do que ele escreve, transparece um valor fundamental: antes de ser um exercício de uma competência, o ato de escrever é uma maneira de ocupar o sensível e de dar sentido a essa ocupação” . Portanto não há aí uma separação entre poder e saber, da arte da escrita de um lado e da política de outro. A escrita, mais do que ser apenas um instrumento do poder ou a via real do saber, é coisa política em primeiro lugar, pois seu gesto pertence à constituição estética da comunidade. Por “constituição estética” entende nesse caso, “a partilha do sensível que dá forma à comunidade” . Assim Rancière constrói seu conceito de partilha do sensível: “Uma partilha do sensível é, portanto, o modo como se determina no sensível a relação entre um conjunto comum partilhado e a divisão de partes exclusivas. Antes de ser um sistema de formas constitucionais ou de relações de poder, uma ordem política é uma certa divisão das ocupações, a qual se inscreve por sua vez, em uma configuração do sensível: uma relação entre os modos de fazer, os modos de ser e os do dizer; entre a distribuição dos corpos de acordo com suas atribuições e finalidades e a circulação do sentido; entre a ordem do visível e a do dizível” [7, 8]. Para Rancière, esse tema da “estetização da política”, se dá desde o início dos tempos, “na medida em que é um modo de determinação do sensível, uma divisão dos espaços – reais e simbólicos – destinados a essa ou àquela ocupação, uma forma de visibilidade e de dizibilidade do que é próprio e do que é comum” . A estética ou a forma de estetizar a política, já traz em si a determinação dos lugares no espaço da função dos corpos: os que pensam e os que trabalham. Para Rancière a “escrita é política porque, cria essa re-divisão que inventa uma separação hierarquizada entre o inteligível e o sensível, “entre as posições dos corpos,sejam eles quais forem, e o poder da palavra soberana, porque opera uma re-divisão entre a ordem do discurso e a das condições” . Para dar uma historicidade a esse dispositivo, Rancière retoma o momento platônico como o cenário em que essa re-divisão é posta em jogo e que há dois milênios e meio governa o pensamento ocidental sobre a escrita. Nela é criado um paradoxo na relação entre a escrita e o ato de seu funcionamento, ao sofrer uma dupla crítica, de ser emudecida como testemunho do seu tempo e falante pelo mutismo em que é colocada em cena: fala por uma linguagem que não é mais a sua e, portanto torna-se destituída de seu poder como corpo ao adentrar a outro corpo de linguagem. O deslocamento do espaço da mimesise o surgimento do romance podem ser caracterizados como o do desaparecimento do ato da palavra como lugar da ordenação, onde o poeta mantém sua presença argumentando e conduzindo a palavra na produção de uma escrita no presente e a manutenção da repetição e memorização. Com a democracia, surge o advento da escrita, esse lugar se torna o espaço emudecido, ou seja, a palavra torna-se órfã e pode ser tomada por falas errantes por estar destituída do ato que a criou, do corpo que lhe dava inteligibilidade. Esse lugar passa a ser o seu não-lugar, quando a escrita perde sua referencia e passa a representar o perigo por se tornar por isso excessiva. Para retirá-la da deriva e dos perigos que possam causar à estabilidade das coisas, seus perigos são afastados para poder haver uma liberação do ato de escrever. A realização desse ato se dá ao fazer falar essas palavras sem referencias, as inscrevendo em outra estética que anula o espaço do sensível em que era partilhada e que lhe deu origem em ato. O momento platônico é o espaço discursivo onde se deu essa dupla crítica e que emudeceu o ato da fala. A ausência da voz que acompanha a escrita torna-a órfã e, portanto muda, sem nenhuma voz presente para dar às palavras seu tom de verdade, o acompanhamento como na mimese para garantir seu semeamento no espírito, dos que são considerados como preparados para “recebê-las e fazê-las frutificar” . Podemos observar nesse acontecimento como o de separação da mimese quando o poeta está presente ao ato de sua palavra e o advento da escrita romanesca quando a escrita se separa do ato de palavra que acompanha a palavra e garante a legitimidade de um logos. Com essa ausência, há o perigo da palavra ser tomada por quem não está preparado: os que trabalham e que não tem tempo para pensar. Do contrário, passam a colocar a comunidade em risco, em uma situação que era antes a garantia de uma escrita acima das apropriações indevidas e fora do lugar. Já não seriam mais garantidos modos legítimos de falar e ouvir, de enunciadores e receptores dentro de um quadro agenciador autorizado. Assim a palavra desprendida da presença do autor, torna-se uma letra morta à mercê de interpretações indevidas, caindo por isso na indeterminação. Rancière mostra com o mythosdo Fedro,a re-divisão e a constituição das condições de fala e, com elas, portanto uma re-divisão do domínio político do espaço público e de decisão quanto ao destino da polis:portanto ao destino das políticas que determinam o destino das coisas públicas. Para ele, “antes do mito da invenção da escrita, um outro mito, o das cigarras, havia separado os dialéticos, que têm a ocasião de trocar palavras a qualquer hora do dia, e os trabalhadores” destituídos desse direito pelo fato do trabalho roubar-lhes o tempo para a troca de palavras; também separa da participação da política da escrita o escravo, que para Aristóteles usa a linguagem, mas não a possui. Observamos aí a partilha das condições de produção da estética política constituindo formas para a existência social: “A inferioridade de uma condição patenteava sua exclusão dos modos verdadeiros do ver e do dizer. Ora, a escrita é aquilo que, ao separar o enunciado da voz que o enuncia legitimamente e o leva a destino legítimo, vem embaralhar qualquer relação ordenada do fazer, do ver e do dizer. A perturbação teórica da escrita tem um nome político: chama-se democracia.” Com a partilha das condições, constitui-se uma ligação da diversidade das identidades sociais constituindo-se, no entanto, uma hierarquia onde se classificava quem tinha capacidade ou incapacidade de suportar as verdades essenciais ao ser e à comunidade. Assim a democracia repete o mito platônico se instituindo não como um modo particular de governo, mas antes disso opera uma forma que dá à comunidade um regime da escrita que é ao mesmo tempo duas coisas em uma e de forma indissolúvel: ao mesmo tempo em que é o regime de uma palavra emancipada de uma origem que lhe dá legitimidade é também a própria textura da lei, a inscrição imutável do que a comunidade tem em comum e o lugar de cada um nessa comunicação dos bens públicos: ao mesmo tempo partilha do sensível e da política pública daí advinda. Rancière observa na idade moderna, que ao ato do encontro dos pobres com o mundo do logos, e das múltiplas apropriações de uma escrita órfã, por isso sem a referência de sua origem, passam a se compor por fragmentos fabulosos e que rolam a mercê das interpretações, dos desvios de leitura e produzindo daí o excesso que leva à sedição. Observa com isso esse outro lado: o das vozes que perpetuam a fábula platônica e que se faz ouvir nos que denunciam as palavras e frases consideradas como vazias e desviadas do uso “que os incitadores de sedição vão buscar no texto dos oradores antigos ou nas paginas do texto sagrado, para transformá-las em armas nas mãos de homens sem importância, que não tem nada a ver com a política.” O objetivo da apresentação dos seus estudos em a Política da Escrita é a de dar certa historicidade ao acontecimento da escrita no ocidente e de como ele desde o início já é em si produto da estética política, onde arte e política formam um núcleo agenciador ligado ao corpo comunitário. Procurando fugir as apropriações das erudições dos antigos, os usuários da palavra são considerados como tendo uma escrita que é fruto de uma falta de referência, portanto uma escrita sem pai. Porém, nasce daí uma forma de liberdade regida por um fundamento onde desde a infância a inteligência será guiada, não pelo pai, mas pela pedagogia sociologizada que constitui a sociedade como a instituição dessa nova paternidade. Essa nova configuração retira da visibilidade das formas o lugar de verdade, buscando o invisível como definidor do real: esse fundo agora constitui a função interior das coisas, como tendo a produção e não mais a forma como o caráter definidor das coisas. É esse fundo que irá constituir como o lugar da redistribuição dos limites do ser. A acumulação de saber da população servirá como constituição histórica do espirito que guiará as ações individuais, ou seja, a “consciência coletiva” nascida dos fatos sociais e produzindo nova classificação dos tipos sociais. O espaço corporificado determinado como uma organicidade funcional. Com o uso das palavras, sem referência e sem a presença de seu semeador, o sonho moderno se estabeleceu no desejo de uma representação imediata, não mimética, do sentido no sensível, e, portanto sem espaço para sua apropriação e deslizamento. Segundo Rancière essa utopia de uma escrita que liga pensamento a uma geologia positiva ainda freqüenta os sonhos dos vanguardistas da Europa modernista, e ela se dá no “afã do semeamento da alma do discípulo às sementeiras do homem novo.” Embebidos no discurso da reencarnação, e com ela na aliança do material com o imaterial, busca-se ao mesmo tempo uma estética política na oposição a uma escrita menos que escrita, que se configurava como “puro trajeto do sentido quase-imaterial, do sentido [...]. Surge a vontade de re-encarnação desse espírito imaterial de forma que houvesse a harmonização com o ritmo vital da comunidade sã” . Para tanto deveria emergir daí a “escrita mais que escrita, aquela cuja verdade é subtraída aos suportes frágeis e aos signos ambíguos da escrita, traçada de modo indelével e infalsificável na própria textura das coisas.” A idade romântica, e principalmente o discurso futurista que emerge no fim do século XIX e início do século XX, se identifica com uma teoria de da natureza cifrada, que levaria a dedicar uma atenção às formas mais elementares da matéria e da vida. Um mundo surge em que o sentido está lacrado nas coisas e mudo ainda para quem não consiga decifrá-lo. A busca de um corpo de escrita que rompe com a figura do pai e cria a natureza como a de uma mãe que protege o filho em sua travessia. Nesse dispositivo discursivo cabe à ciência o papel de conduzir os passos da mãe natureza para que chegue sã e segura a um porto final. Rancière exemplifica aí uma união: “de uma simbólica hermética a uma geologia positiva do sentido se prolonga na utopia tecnológica dos engenheiros Saint-simonistas das almas, traçando diretamente na terra, por estradas de trilhos e de água, as vias da comunicação autentica e os signos da prosperidade futura. [...] somente as palavras vêm atestar que é mesmo escrita o que se realiza, nas chagas de uma carne como no sopro do vento, nas estrias da pedra ou na estrada de ferro. Somente um excesso de escrita ‘morta’ pode incluir a ‘voz viva’ na escrita morta.” Portanto a reinscrição desloca o espaço do perigo de sua forma errante e a possibilidade de “uma invasão da monofonia do discurso nobre pela multiplicidade das vozes do baixo”. A retomada da forma platônica se dá pela invenção do discurso nobre, uma imitação do logos vivo que protege a própria reserva contra o que a ameaça verdadeiramente: o que era considerado como o vigor da palavra popular é reinscrito como o “o desvio democrático da escrita, a aventura do discurso ‘mudo’, circulando sem voz que garanta sua enunciação e a validade do que ele diz.” Se a mimeses, érecusada por Platão, é porque ela representa a aparência como o mundo democrático onde a opinião define o destino da polis. Ela passa a ser regulamentada por Aristóteles, que define o escravo como usuário da linguagem, mas que não é seu possuidor, e quem trabalha como não possuidor do tempo para pensar: com isso ambos foram suprimidos do direito de participar da estética política, enfim a revolução estética moderna, que encerra o mundo das multiplicidades discursivas no terreno da verdade e da falsidade, da certeza e do desvio, do racional e do irracional, da razão e da loucura. Essa comunidade estética da separação é uma comunidade política da deslegitimação, espaço de onde se defineuma outra guerra: a da escrita, uma guerra civil, de certa maneira em que pode ser feita com armas que não ferem . Uma política como uma guerra silenciosa que reinsere o campo de luta nas instituições do lugar que daria certeza às falas fora do lugar. Uma política que funciona como sanção e recondução do desequilíbrio manifestado nas sedições causadas pelo uso de palavras soltas e à mercê de apropriações indevidas e que colocam em risco a paz civil. Ao inverter o aforismo de Claussewtz de que a guerra é a política continuada por outros meios, Foucault, afirma que a política, sim que é a guerra continuada por outros meios . Há uma semelhança com o que afirma Rancière: a de uma guerra da escrita que ao produzir uma estetização da política define a espacialidade comunitária, produzindo uma pacificação dos tumultos corpóreos e de suas falas sediciosas. Se a fala está agora encerrada em lugares que autorizam ou não sua produção, a literatura ao reproduzir o lugar do discurso platônico cria a possibilidade da escrita recuperando a construção da memória, mas negando à fala seu exercício como excesso de fala, que é considerado como a fala fora do lugar. Essa fala do que trabalha é retomada como forma de firmamento para a democracia que se traduz no seu emudecimento por uma continuidade ameaçada. A fala é redistribuída em outra gramática que não a sua e assim torna-se destituída do tumulto que o corpo que anteriormente lhe dava potência. A vertigem provocada no firmamento da escrita leva à necessidade da supressão dos desvios provocados pelas falas de quem não é de direito: supressão de sua força, pois a palavra é liberada, porém fazendo-a calar ao ser inserido em outra linguagem que lhe retira a força como saber, portando tornada sem poder. Para podemos falar da historiografia dos Annalesa partir do que até aqui foi discutido, precisamos colocar em suspensão a noção de existência de uma ruptura epistemológica. Ao contrário, para o estudo por uma estética escriturária, seu acontecimento foi um recurso poético que retoma mais uma vez o discurso platônico, porém na necessidade de um saber imediato entre a voz do espírito e a materialidade das coisas. Segundo Rancière: O paradigma da escrita que a história ‘romântica’ de Michelet transmite á ciência sóbria dos Annalese da “nova história” é precisamente isso: um modo de utilizar a literatura como antiliteratura, para dar às letras mudo-falantes da escrita o corpo mudo/vivo da verdade delas e permitir assim à história tornar-se ciência sem deixar de ser história. ” Rancière deixa mais explícito o percurso desse discurso moderno e a forma como ele procura reinscrever o discurso científico no campo historiográfico dando-lhe uma coloração científica sem deixar de constituir-se como uma narrativa histórica. Em seu livro Os nomes da História: Um Ensaio de Poética do Saber, Rancière se dedicou ao estudo da tentativa de ruptura da nova história, ligada aos Annales, com o primado do acontecimento e dos nomes próprios. Desde a tentativa de ruptura com a crônica na busca de cientificidade da história houve uma luta no intuito de revogar o primado dos acontecimentos e dos nomes próprios em proveito das grandes durações e da vida dos anônimos. Na busca de dar cientificidade á morte do rei e aos seus historiadores, se colocavam na necessidade da regulação do excesso das palavras das massas, e da profundidade que lhes davam sentido. Rancière trata das abordagens de Braudel em sua obra Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo à época de Philippe II, editada em 1949. Nela Braudel enfoca a morte do rei, quando sua proposta não é deixar de falar dela ou mesmo falar dela para explicar que não há lugar para a morte do rei. Ele escolhe uma terceira alternativa que é contar o acontecimento, fora do lugar que lhe deveria caber, para assim torná-lo mudo. Há aí um deslizamento do relato: nessa operação é garantido um enunciado, porém re-inscrito em outra linguagem fora do lugar que lhe dava corpo e consistência. Ele emerge pela substituição de um relato por outro relato. O deslocamento da história dos reis para o mar: desse deslocamento surge um novo sujeito: o mar. Daí o problema: há aí um revolução histórica? Eis a questão levantada pelo estudo de Rancière. Há uma ruptura historiográfica? Uma metáfora simples? É o adeus a uma história antiga? Rancière entende como sendo a existência de uma anfibologia, ou seja, a viagem gramatical no tempo, garantindo a presença do historiador no quadro, recolocando os pronomes e dando-lhes novos personagens. É o “nós”, transladando ao tempo do rei que por sua vez é tratado, pelo deslocamento verbal que o re-inscreve na história como terceira pessoa, “ele”, dando com isso um novo ordenamento ao acontecimento: não propriamente suprimindo-o mas mantendo-o fazendo falar fora do lugar: uma voz emudecida. Assim disse Braudel: “Historiadores, nós o abordamos mal: como os embaixadores, ele nos recebe com a mais fina polidez, nos escuta, mas responde com a voz baixa, freqüentemente ininteligível, e não nos fala nunca de si”. A morte do rei é substituída pelo relato reapoderado pelo presente do historiador que se translada no tempo e recoloca o tempo do rei. Ele é instalado sobre seu trono ou sentado a uma mesa, porém nessa cena aparece o historiador que reorganiza a papelada dos pobres. “É aí que ele é metaforicamente morto, convencido a não falar, de não ter nada a dizer. Eis então o retrato de rei.” Mais que uma figura de estilo, o que mais chama a atenção de Rancière, é a soberania do presente no relato da nova história, revolucionando o sistema dos tempos do relato. Com isso desloca-se do lugar da leitura produzida por Paul Ricoeur , ao não entender esse acontecimento como uma questão de estilo, de uma intriga narrativa, pois vê essa maneira de abordagem dissociada do uso gramatical de um tempo invadindo o acontecimento no passado e com ele toda a composição lingüística de um momento discursivo que compõe o corpo da escrita desse acontecimento e que é alterado em sua forma linguística. Para Rancière isso não se dá por negligência de Ricoeur e sim pelo fato dele ter a sua análise dependente dos quadros da fenomenologia à qual se situa a sua perspectiva de historiador. Para Rancière, a nova história construiu um relato no sistema de discurso, dando à objetividade do relato a força da certeza que lhe faltava. O tempo do discurso é mais que uma história, pois é a que arranca o acontecimento de sua incerteza e dá-lhe garantia de uma relação entre uma ação anterior a uma ação posterior que se exprime. Assim vê a reorganização do relato diferente de “estilo”, pois há aí uma intervenção do “presente histórico” com sua gramática, alterando a situação pronominal do acontecimento histórico no passado, deslocando seu sentido gramatical, como forma de adequá-lo a uma sistematização que desse a certeza que faltava àquele relato e o retirasse da sua situação errante. Isso implica para ele, numa poética do saber, da invenção de um regime novo de verdade onde se junta à objetividade do relato a certeza do discurso. Assegura a primazia das coisas sobre as palavras, o que torna com essa operação uma reorganização lingüística. “A história elabora o conhecimento de seus novos objetos no cruzamento dos dados fornecidos pelas ciências do espaço da circulação, da população e dos fatos coletivos, na junção da geografia, da demografia e da estatística. Este deslocamento científico responde ao deslocamento de uma política que não atinge mais a ordem dos reis, mas a das massas.” 24. Esse deslocamento do historiador que se apropria da cena onde está o rei e seus embaixadores colocando-se como o “nós” e o rei na terceira pessoa, lhe proporciona uma ausência, e produz uma benevolência do historiador à renascença das massas. Para isso, revolve as papeladas dos pobres que estavam sob a mesa do rei, porém interpretando-as como fruto de um mundo cego de cólera e de paixões, ao qual faltaria a presença do historiador. Por uma operação de linguagem reorganiza a papelada dos pobres, retira-os de sua cegueira produzida pelo ódio produto de falas que devem ser reinscritas. Para realçar esse acontecimento o historiador produz um desvio da análise para o acontecimento da revolução inglesa onde Thomaz Hobbes alerta sobre as causas das sedições que são as papeladas dos pobres que implicam no excesso das palavras ou palavras em excesso que armam os braços assassinos. Isso se daria pela proliferação dos falantes fora do lugar e fora da verdade. Braudel afirma que “para passar da história dos acontecimentos à das estruturas, é necessário subtrair as massas de sua não-verdade. E há a papelada dos ‘pobres’, dos falantes fora da verdade, invadindo o tempo perdido da história, que para “Braudel e os partidários lúcidos do saber social moderno, arcam aí ‘a cegueira da vida” . Para Rancière: “Não há nenhuma contradição entes estes dois julgamentos. É ao contrário um dos axiomas fundadores do saber social moderno, fortemente pontuado por Durkheim: é o excesso da vida que torna a vida doente; doente por cegueira, cega a sua doença. É o excesso de vida que provoca a morte. E o excesso de vida nos seres falantes reunidos em sociedade, é, antes de tudo, o excesso da palavra. Este excesso das palavras e das frases torna os homens daépoca das massas cegos aos grandes equilíbrios e ás grandes regulações que mantém o corpo social ao mesmo tempo em que eles o fazem objeto de ciência. Essa forma de fazer falar calando constitui o relato fundador do discurso histórico das produções feitas por seus historiadores, como de LucienFebvre relacionada com as obras de Michelet, quando de suas tentativas de dar voz às falas dos pobres. O objetivo é mostrar como que ao almejar uma cientificidade da história, não conseguiam desvencilharem-se da arquitetura narrativa para constituírem outros sujeitos e outros acontecimentos. Para tanto era preciso dar-lhes outro relato fundador, não as apagando, mas erigindo-as no não-lugar da suas falas, retirando-as do seu tumulto. Esse procedimento colocava em funcionamento a história por uma disjunção, redistribuindo-a no discurso da ciência histórica, retirado o perigo que colocava à estabilidade da narração, da ciência e da política, enfim da democracia. Essa dupla ameaça determinou o projeto sociológico de uma política do saber, restringindo essa poética do saber histórico, à regulação da vida excessiva, dos seres falantes, que matou a legitimidade real e ameaçava a do saber. Longe de qualquer “artifício de estilo”, esses intercâmbios entre poderes do discurso e do relato afetam de não-verdade os saberes próprios da idade das massas. O interesse de Rancière nesse estudo é mostrar como a via da análise pela poética do saber, nos faz saber sobre uma história com tripla articulação: ambições científicas, seus procedimentos literários e a seus pressupostos políticos. O Excesso das Palavrasfica então entendido foco de problema para o estatuto do discurso histórico, mas que parecia cientificamente insignificante: esse excesso seria “a fala de um ser vivo que fala muito, que fala demais e fora da verdade” e “o fato dele colocar em risco o firmamento científico e político do saber moderno? Se é uma fala considerada como emitida por um sujeito que não tem qualidade para garantir a referencia do que diz, qual é então a escolha do historiador. Não falar, não dar status de signo a esta fala ou falar dela para explicar porque não há que levá-la em consideração, ou refazer o relato do que ela diz. Rancière escolhe dois exemplos onde se a escolha é clara vê na resposta a complexidade. Se utilizando de uma tática operatória a escrita histórica reorganiza o acontecimento da fala, retirando-o da singularidade que lhe dá sustentação e força, ou seja, do acontecimento. Dá ao personagem um lugar que o honre, reconstrói a argumentação minuciosamente da personagem com seus detalhes concretos e sua força persuasiva, para logo em seguida destituí-lo colocando a situação de não-lugar. O lugar é totalmente modificado. Rancière recupera o episódio de uma narrativa histórica do historiador da antiguidade, Tácito que ao retratar a revolta comandada por um soldado romana, o faz descrevendo minuciosamente toda sua fala para em seguida operar um deslizamento, destituindo o seu poder de acontecimento, de forma que sem alterar sua fala, a declara nula e mal sucedida logo em seguida. Há uma destituição da condição de verdade e de legitimidade das falas. Sua condição de ser um homem do trabalho e, portanto despido de suas condições de falante legítimo e incompetente de pensamento e expressão. Uma fala ordinária e sem possibilidade de conflitar. “A fala do homem do povo é por definição sem profundidade” . Esse exemplo pode ilustrar a proposta do estudo. O que diferencia o relato histórico da mimesis? É que enquanto a mimesisproduz o saber no presente pela repetição, o ato de redizer nessa operação historiográfica, nega a mimesis, pois se desloca da situação de uma repetição: redizer passa a não ser o mesmo que repetir, pois quem sabe o que alguém no passado realmente quis dizer? Redizer supõe reorganizar o passado, re-inscrevendo-o por uma operação de linguagem que libera o acontecimento, garantindo uma reserva da verdade. Nesse caso não é o personagem que fala a sua linguagem, mas é o historiador que lhe empresta a sua língua. Por outro lado, a veracidade ou não da documentação torna-se infrutífera e ineficaz, pois o deslocamento operado na sua gramática o torna mudo e falante ao mesmo tempo. Mas o que isso tem de importância para tal procedimento? O que importa é saber que redizer a memória não é unicamente a busca dos traços, dos sinais que a documentação nos traria pela sua transparência do real. Portanto, para Rancière, refazer esse discurso não é tarefa preferencialmente de documentação, mas de invenção. Trata-se de saber o que pôde dizer um personagem desse tipo em tal situação. E para tanto, em cada momento do passado, houve um modelo apropriado. Ao recuperar o passado de uma voz, dá-se um lugar de honra à fala, deixa-a se expor a vontade, porém, retira do sujeito falante o lugar que dá força à sua fala e lhe dá a do historiador, do lugar do seu tempo e conseqüentemente dos seus procedimentos, que ao emprestar-lhe a sua língua, o destitui como acontecimento próprio. O relato fundadordo passado se dá como um regime das falas no que tem de excessivas, o que Rancière define como a revolução poética. Esta regulamentação aparece como um relato que funda um acontecimento que sirva de exemplo para uma pacificação ou um acirramento e que sirva a uma questão de legitimação ou deslegitimação político no presente. No caso da regulamentação operada por Michelet, por exemplo, há a supressão de um lugar da fundação do acontecimento que se desloca do lugar que lhe sinaliza como de violência para outro lugar da sua pacificação. No caso da “regulamentação, na História da Revolução Francesa, pode ser lida em um relato exemplar, um relato fundador, o da festa da Federação. Esta é, com efeito, para Michelet, o acontecimento pacífico e fundamental em que se manifesta o sentido da Revolução” . É suprimida a Bastilha destruída ou a realeza decapitada, pois essa fundação representaria uma memória que chamava parra a violência e a sedição. Era preciso fundar um passado e assim o foi, o da federação, que contribuiu para o “aparecimento da nova entidade política que é ao mesmo tempo o novo objeto de amor, a pátria [...] a grande pátria lhe apareceu sobre o altar que lhe abre os braços e que os quer abraçar” um novo sujeito ocupa o relato que funda a democracia francesa, e que tanto Michelet, quanto LucienFebvre fazem funcionar. Febvre aponta para a possibilidade de uma nova história das coisas que faz aparecer em lugar do corpo do rei o corpo político da nação, da pátria, abstrações que ao receberem uma pessoalidade fundam esse novo sujeito. Com ele uma nova maneira de contar e fazer deslizar o lugar da fundação do passado como a invenção de um principio que é fruto do novo relato que é um acontecimento não acontecido e que foi fruto de uma fundação posterior. Para Rancière, Braudel, “prossegue sobre o caráter excepcional desta literatura, desses documentos sobre um acontecimento que são ao mesmo tempo os monumentos de uma nova época:” neles é recuperado aquilo que foi fruto de uma operação de Michelet sobre os papeis das massas durante a revolução, que para isso deu valor à sua moldura, a dos galões tricolores para transformar a escrita das cartas de amor em escritas de amor à pátria. Mas é com isso que se inventa uma origem por um relato fundador. Diz ele: “Veneráveis monumentos da fraternidade nascente [...] vós permaneceis para sempre para testemunhar de coração, a propósito de nossos pais, seu entusiasmo quando, pela primeira vez, eles mudaram a face amada da pátria.” O lugar da fala se funda entre a crônica morta dos soberanos e a tagarelice invasora dos pobres: os Annales e a invenção de uma teoria do lugar da fala. A ordem da escrita ordena os corpos: “como espaço de uma guerra da escrita ou o apaziguamento da perturbação da papelada dos pobres que invade o tempo perdido e coloca a história fora da verdade” . Ao retirá-los de sua verdade fora do lugar, os tiram das condições de mortos que são restabelecidos pelo historiador à vida. Morto por não saberem o enigma que comandam suas vidas e só o historiador conseguia decifrar o segredo. Fazia seu resgate reinscrevendo-os do passado por um presente que entende esse passado “como um retardo da vida em se saber e em se dizer ela própria” . Portanto há história porque há palavras em excesso, cortadoras da vida e ferramenta de guerra das escritas. Há uma história científica pelo fato de haver o escrito que pacifica o tumulto das vozes sem lugar. Um regime que transforma heresia e dá-lhe outra voz, a voz do lugar e daí um corpo de imanência. Esse lugar de carne terra precisa da fala que se enraíza e tece as palavras. Mas o excesso de palavras nunca deixa se domesticar. Com isso cria o dilema e que para dele sair é preciso encher o desvio entre o rigor das determinações. Bibliografia FOUCAULT, Michel: Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999. RANCIÈRE, Jacques. Os nomes da História: Um Ensaio de Poética do Saber. 1994. _________________. Política da escrita. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa: tomo I. Campinas – SP: Papirus, 1994.